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domingo, dezembro 27, 2009

O meu vício em romances ingleses obscenos

“Ergueu o vestido de Constance acima dos seios e os beijou suavemente, sugando os bicos retesados.

-- Ah, Que bom, como é bom! – murmurou de súbito, esfregando o rosto em seu ventre com prazer.

Constance passou o braço ao redor do corpo dele, sob a camisa; mas tinha medo daquele corpo esbelto, liso e nu, que parecia tão possante; tinha medo de seus músculos violentos. Tinha medo.

Quando ele lhe disse, quase num suspiro, “Como é bom!”, qualquer coisa em Constance arrepiou-se e qualquer coisa em seu espírito retesou-se, pronta para a resistência – resistência àquela terrível intimidade física e à pressa de posse do macho. E dessa vez não se atordoou no êxtase agudo de sua própria paixão. Permaneceu alheia, com as mãos inertes ao redor do corpo do homem em movimento; e, por muito que fizesse, não podia evitar que seu espírito analisasse com frieza o que se ia passando; o movimento de vaivém daquelas coxas lhe parecia grotesco, como lhe pareceu risível o frenesi do pênis afobado ao chegar à sua pequena crise de ejaculação. O amor, então, aquilo? Aquele sobe-e-desce de nádegas? Aquele entra-e-sai do pobre pênis pequenino, insignificante, úmido? Amor, o divino amor! Afinal de contas, os modernos tinham razão em seu desprezo por essa comédia, porque aquilo era uma comédia. Bem dizia o poeta: “O Deus que criou o homem devia ter um sinistro senso de humor, para fazer dele uma criatura de razão e ao mesmo tempo obrigá-lo a essa postura grotesca – e também impeli-lo a, cegamente, desejar tão ridícula comédia.”

Frio, irônico, seu curioso espírito de mulher ficava alheio àquilo e, embora se conservasse perfeitamente imóvel, seu instinto a impelia a se erguer, escapar do homem e fugir àquele braço e às estocadas de pilão das ridículas ancas que a cavalgavam. Aquele corpo de homem era uma coisa absurda, desagradável, inacabada, impudente, grosseira. Quando a humanidade fosse mais evoluída, teria de suprimir tal comédia, eliminar semelhante “função”.

E, apesar disso, quando Mellors acabou e ficou em cima dela, tranqüilo e silencioso, num afastamento estranho, longe, tão longe dela, Constance começou a chorar em sua alma. Sentia-o refluir, refluir para longe dela, e abandoná-la como um seixo na praia. Mellors retirou-se, abandonava-a em espírito. Ela o sentiu.

-- Dessa vez falhou – disse ele. – Você esteve ausente.

Ele havia percebido! E ela chorou mais forte.”

Página 211-212, O amante de Lady Chatterley – D. H. Lawrence.

terça-feira, setembro 15, 2009

Reconhecimento do amor

"(...)
Descansei em ti meu feixe de desencontros
e de encontros funestos.
Queria talvez - sem o perceber, juro -
sadicamente massacrar-se
sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
desde a hora do nascimento,
senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
ou mais longe, desde aquele momento intemporal
em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
no caos universal
_______________________________
Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.
_______________________________
(...)
Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
e se confessasse jubilosamente vencido,
até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
a melodia, a paisagem, a transparência da vida,
perdidos que estamos na concha ultramarina de amar."
_______________________________
In Amar se aprende amando, Páginas 13-15, Carlos Drummond de Andrade.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Café derramado

Quero ser Chico.
"Não sei por que você não me alivia a dor. Todo o dia a senhora levanta a persiana com bruteza e joga sol no meu rosto. Não sei que graça pode achar dos meus esgares, é uma pontada cada vez que respiro. Às vezes aspiro fundo e encho os pulmões de um ar insuportável, para ter alguns segundos de conforto, expelindo a dor. Mas bem antes da doença e da velhice, talvez minha vida já fosse um pouco assim, uma dorzinha chata a me espetar o tempo todo, e de repente uma lambada atroz."
BUARQUE, Chico. Leite Derramado, I0.

sexta-feira, julho 31, 2009

Incompatibilidade de Gênios

''Dotô, jogava o Flamengo, eu queria escutar.
Chegou, mudou de estação, começou a cantar.
Tem mais: um cisco no olho, ela em vez de assoprar, sem dó falou que por ela eu podia cegar.
Se eu dou - um pulo, um pulinho - um instantinho no bar...Bastou!
Durante dez noites me faz jejuar!
Levou as minhas cuecas pro bruxo rezar!
Coou meu café na calça prá me segurar!
Se eu tô devendo dinheiro e vem um me cobrar...
Dotô, a peste abre a porta e ainda manda sentar!
Depois, se eu mudo de emprego que é prá melhorar, vê só, convida a mãe dela prá ir morar lá!
Dotô, se eu peço feijão... ela deixa salgar.
Calor, mas veste o casaco prá me atazanar!
E ontem, sonhando comigo, mandou eu jogar no burro...
E deu na cabeça a centena e o milhar!
Ai, que-ro-me-se-pa-rar"
(João Bosco e Aldir Blanc, 1976)
Incompatibilidade de Gênios: o meu com o do mundo.

domingo, maio 31, 2009

Outra Carta ao Absurdo

a manhã de hoje, no sentido da janela e depois cortina para então matizar os lençóis de ressaca da minha cama, foi vermelha. e é tua a culpa da hemorragia. também de Chico, que cantava as saudades e os pedaços quando tuas palavras de confortar vigília antiga brotaram na tela seca do celular. vermelho é cor de perigo e de desejo (e o meu épico amor por precipícios). sei que a regra é o desapego (''São Paulo, transição, antigamente eu era o Tomas escrito e encarnado, feriados & Rio de Janeiro, família, tia, almoços de domingo na Liberdade, liberdade, liberdade, liberdade, a insustentável leveza do ser''), mas acho que começo a fabricar desenhos antropomorfos na fotografia da memória. (fica de aviso e servindo de uma desculpa tua pr'um sumiço qualquer). animais em homens, o instinto tomando forma. entretanto, que fiquem as linhas feito Montrachet, tragadas & (engo)lidas com maestria: eu sei da poesia e inclusive do seu grand finale - sei do jogo bem jogado, Moço dos trinta.
te mordo leve, bem leve,
''Ela saiu da livraria (só agora me dou conta de que era como uma metáfora, ela saindo nada menos do que de uma livraria) e trocamos duas palavras e fomos tomar um copo de pelure d'oignon num café de Sèvres-Babylone (falando de metáforas, eu era porcelana delicada recém-desembarcada, HANDLE WITH CARE, e ela era Babylone, raiz do tempo, coisa anterior, primeval being, terror e delícia dos inícios, romantismo de Atala, mas como um tigre autêntico, esperando por trás da árvore). E, assim, Sèvres foi, com Babylone, tomar um copo de pelure d'oignon, olhamos um para o outro e penso que já começávamos a nos desejar (mas isso foi mais tarde, na rue Réaumur), e sucedeu um diálogo memorável, absolutamente recoberto de mal-entendidos, de desajustes que se solucionavam em vagos silêncios, até que mãos começaram a marcar, era doce acariciar as mãos, olhando um para o outro e sorrindo, acendíamos Gauloises na ponta do cigarro do outro e vice-versa, esfregávamo-nos com os olhos, estávamos tão de acordo com tudo que era até uma vergonha, Paris dançava lá fora, nos esperando, tínhamos acabado de desembarcar, começávamos a viver, tudo estava ali, sem nome e sem história (particularmente para Babylone, e o pobre Sèvres fazia um enorme esforço, fascinado por aquela maneira com que Babylone olhava o gótico sem colocar-lhe etiquetas, com que andava pelas margens do rio sem ver passar os drakens normandos). Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que tinham se tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para a outra enquanto os pais as puxavam pelas mãos, arrastando-as para a rua, e isso é uma dor doce e uma esperança, e sabe-se que um se chama Tony e a outra Lulu, e basta para que o coração seja como uma fruta, e...
Horacio, Horacio.
Merde, alors. Por que não? Falo daquele tempo, da Sèvres-Babylone, não deste balanço elegíaco no qual já sabemos que o jogo foi jogado.''
(Página 490, Capítulo 93 - O jogo da amarelinha, Julio Cortázar.)

A castidade com que abria as coxas

"A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino."
(Carlos Drummond de Andrade in O amor natural)

terça-feira, janeiro 06, 2009

Para Mariana, a Dona dos meus sentimentos morenos

''Lay, lady, lay, lay across my big brass bed
Lay, lady, lay, lay across my big brass bed
Whatever colors you have in your mind
I'll show them to you and you'll see them shine
Lay, lady, lay, lay across my big brass bed
Stay, lady, stay, stay with your man awhile
Until the break of day, let me see you make him smile
His clothes are dirty but his hands are clean
And you're the best thing that he's ever seen
Stay, lady, stay, stay with your man awhile
Why wait any longer for the world to begin
You can have your cake and eat it too
Why wait any longer for the one you love
When he's standing in front of you
Lay, lady, lay, lay across my big brass bed
Stay, lady, stay, stay while the night is still ahead
I long to see you in the morning light
I long to reach for you in the night
Stay, lady, stay, stay while the night is still"
(Lay, Lady, Lay - faixa II - Nashville Skyline (1969), Bob Dylan)

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Hoje é dia de Clarice, 10 de dezembro de 1920

''Era noite cada vez mais escura e chovia muito. Embora sem vê-lo, reconheceu pela sua respiração pausada que ele dormia. Ficou de olhos abertos no escuro e cada vez mais o escuro se revelava a ela como um denso prazer compacto, quase irreconhecível como prazer, se fosse comparado com o que tivera com Ulisses. Ele estar dormindo ao seu lado deixava-a a um tempo sozinha e integrada. Ela não queria nada senão aquilo mesmo que lhe acontecia: ser uma mulher no escuro ao lado de um homem que dormia.''
(Página 148, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector)

Pneumotórax

''Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
— Respire.
.............................................................................
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.''
(Pneumotórax in Libertinagem - Manoel Bandeira)

terça-feira, novembro 11, 2008

Nosso tempo

_________________________________''(...)II Esse é tempo de divisas, tempo de gente cortada. De mãos viajando sem braços, obscenos gestos avulsos. _________________________________ Mudou-se a rua da infância. E o vestido vermelho vermelho cobre a nudez do amor, ao relento, no vale. _________________________________ Símbolos obscuros se multiplicam. Guerra, verdade, flores? Dos laboratórios platônicos mobilizados vem um sopro que cresta as faces e se dissipa, na praia, as palavras. _________________________________ A escuridão estende-se mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos. Certas partes de nós como brilham! São unhas, anéis, pérolas, cigarros, lanternas, são partes mais íntimas,e pulsação, o ofego, e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar, e continuamos. _________________________________ (...)IV É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina. Tempo de cinco sentidos num só. O espião janta conosco. _________________________________ É tempo de cortinas pardas, de céu neutro, política na maçã, no santo, no gozo, amor e desamor, cólera branda, gim com água tônica, olhos pintados, dentes de vidro, grotesca língua torcida. A isso chamamos: balanço. _________________________________ No beco, apenas um muro, sobre ele a polícia. No céu da propaganda aves anunciam a glória. No quarto, irrisão e três colarinhos sujos. _________________________________ (...)'' _________________________________ Nosso tempo in A rosa do povo - Carlos Drummond De Andrade

segunda-feira, novembro 03, 2008

Crazy Cock

''... de um lado a esperança, longe, para além dos Alpes, e o desespero do outro, do lado de cá, no vale gris e desolado do futuro. E, no entanto, misturada a essa atmosfera de desalento, uma terna espécie de perdão, não explícita, reservada, uma simpatia melancólica como a devotada aos insanos e aos cegos.''
Página 142, Crazy Cock - Henry Valentine Miller

terça-feira, outubro 21, 2008

Trópico de Câncer

''Ela, Mona, costumava dizer-me, em seus acessos de exaltação, ''você é um grande ser humano''. E embora me tenha deixado aqui para perecer, embora tenha posto embaixo de meus pés um grande poço uivante de vazio, as palavras que jazem no fundo da minha alma saltam para a frente e iluminam as sombras, por baixo de mim. Sou alguém que se perdeu na multidão, alguém a quem as luzes esfuziantes deixaram estonteado, um zero que viu tudo ao seu redor reduzido a escárnio. Passam por mim homens e mulheres com enxofre, porteiros em libré de cálcio abrindo as fauces do inferno, fama caminhando sobre muletas, amesquinhada pelos arranha-céus, mastigada e esfrangalhada pela boca pontiaguda das máquinas. Eu caminhava entre os altos edifícios em direção ao frescor do rio e via as luzes subirem entre as costelas dos esqueletos como foguetes. Se eu fosse verdadeiramente um grande ser humano, como dizia ela, então qual seria a significação dessa escravizante idiota que me cerca? Eu era um homem com corpo e alma, eu tinha um coração que não estava protegido por cúpula de aço. Eu tinha momentos de êxtase e cantava com centelhas ardentes. Eu cantava o equador, as pernas dela vestidas de vermelho e as ilhas perdendo-se de vista. Mas ninguém ouvia. Um tiro disparado através do Pacífico perde-se no espaço porque a Terra é redonda e os pombos voam de cabeça para baixo. Vi-a olhando através da mesa com os olhos cheios de pesar; a tristeza, aprofundando-se, achatava-lhe o nariz contra a espinha; a medula batida pela piedade tornara-se líquida. Ela era leve como um cadáver que flutua no mar Morto. Seus dedos sangravam com angústia e o sangue transformava-se em baba. Com a madrugada úmida veio o dobrar dos sinos e ao longo das fibras dos meus nervos os sinos tocaram incessantemente e seus badalos bateram em meu coração e retiniram com maldade de ferro. Estranho que os sinos dobrassem assim, mas ainda mais estranho é o corpo estourando, esta mulher voltada para a noite e suas palavras verminosas roendo através do colchão. Movimentei-me por baixo do equador, ouvi a hedionda risada da hiena de fauces verdes, vi o chacal de rabo sedoso e o leopardo malhado, tudo deixado no jardim do Éden. E depois sua tristeza alargou-se como a proa de um couraçado, e o peso de seu afundamento inundou minhas orelhas. Lodo e safiras escorrendo, derramando-me entre os alegres neurônios, e o espectro entrançando e as amuradas afundando. Macios como patas de leão eu ouço os carros dos canhões virarem, vejo-os vomitarem e babarem: o firmamento verga e todas as estrelas ficam pretas. Oceano negro sangrando e as estrelas chocas criando nacos de carne recém-inchada enquando no alto os pássaros esvoaçam e do céu alucinado cai a balança com o almofariz e a mão, e os vendados da justiça. Tudo o que está aqui relacionado move-se com pés imaginários ao longo dos paralelos de orbes mortos; tudo o que é visto com as órbitas vazias rebenta como capim florescente. Do nada esgue-se o sinal de infinito; debaixo das espirais sempre ascendentes afunda-se vagarosamente o buraco escancarado. A terra e a água fazem números em conjunto, um poema escrito com carne e mais forte que o aço ou granito. Através da noite interminável a Terra rodopia em direção a uma criação desconhecida...
Hoje acordei de um sono pesado com pragas alegres em meus lábios, com palavras desconexas em minha língua, repetindo para mim mesmo uma litania - ''Fay ce que vouldras!... fay ce que vouldras!''. Faça qualquer coisa, mas que cause êxtase. Tantas multidões dentro de minha cabeça quando digo isso para mim mesmo: imagens, alegres, terríveis, enlouquecedoras, o lobo e o bode, a aranha, o caranguejo, a sífilis com suas asas estendidas e a porta do útero sempre destrancada, sempre aberta, sempre preparada como o túmulo. Luxúria, crime, santidade: as vidas dos meus adorados, os fracassos dos meus adorados, as palavras que deixaram atrás de si, as palavras que deixaram inacabadas; o bem que arrastaram atrás de si e o mal, a tristeza, a discórdia, o rancor, a luta que criaram. Mas, acima de tudo, o êxtase!''
Página 237, 238 e 239, Trópico de Câncer - Henry Valentine Miller

quarta-feira, setembro 17, 2008

Ensaio sobre a cegueira

''O medo voltou, sub-reptício, mal ela avançou alguns metros, talvez estivesse enganada, talvez ali mesmo à sua frente, invisível, um dragão a esperasse de boca aberta. Ou um fantasma de mão estendida, para a levar ao mundo terrível dos mortos que nunca acabam de morrer porque sempre vem alguém ressuscitá-los. Depois, prosaicamente, com uma infinita, resignada tristeza, pensou que o sítio onde estava não era um depósito de comidas, mas uma garagem, pareceu-lhe mesmo sentir o cheiro da gasolina, a este ponto pode iludir-se o espírito quando se rende aos monstros que ele próprio criou. Então, a sua mão tocou em algo, não os dedos viscosos do fantasma, não a língua ardente e a goela do dragão, o que ela sentiu foi o contacto de um metal frio, uma superfície vertical lisa, adivinhou, sem saber que era esse o nome, que se tratava do montante de uma armação de prateleiras.''
Página 221, Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago.

quarta-feira, agosto 27, 2008

O labirinto

''Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.''
O labirinto in Atlas - Jorge Luis Borges

sexta-feira, agosto 15, 2008

Uma temporada no inferno

''Escuto-o a fazer da infâmia uma glória, da crueldade um atrativo. 'Pertenço à raça distante: meus pais eram escandinavos: faziam incisões nas costas, bebiam o sangue. - Farei entalhes por todo o corpo, me tatuarei, quero me tornar assustador como um mongol: vais ver, berrarei pelas ruas. Quero me tornar louco de raiva. Nunca me mostre jóias, vou me arrastar e retorcer no tapete. Minha riqueza, gostaria de manchá-la de sangue por toda parte. Nunca trabalharei...' Muitas noites, seu demônio me tomando, rolamos juntos, lutava com ele! Seguido ele me aguarda à noite, bêbado, numa rua ou sob um teto, para me amedrontar mortalmente. - 'Vão me cortar o pescoço mesmo, que nojo'. Oh, os dias em que quer andar com a aura do crime!
Às vezes fala, numa espécie de gíria enternecida, da morte que faz se arrepender, dos infelizes que sem dúvida existem, dos trabalhos penosos, das separações que dilaceram os corações. Nas espeluncas onde nos embriagamos, chorava observando os que estavam em volta, gado de miséria. Levantava os bêbados nas ruas escuras. Tinha a piedade de uma mãe malvada pelos filhinhos. - Ia embora com gentilezas de menina aprendendo o catecismo. - Fingia estar a par de tudo, comércio, arte, medicina. - Eu o seguia, era preciso.
Eu via todo o ambiente no qual, em espírito, se envolvia: roupas, lençóis, móveis: eu lhe dava força, uma outra figura. Via de tudo o que tocava, como se tivesse querido criar cada coisa por ele mesmo. Quando me parecia com o espírito inerte, eu o seguia em ações estranhas e complicadas, longe, boas ou más: estava segura de nunca entrar em seu mundo. Ao lado de seu querido corpo adormecido, quantas horas noturnas de vigília, me perguntando por que ele queria tanto se evadir da realidade.
(...) Como isso te soará engraçado quando eu não estiver aqui, isso por que passaste. Quando não tiveres mais meus braços em volta do pescoço, nem meu peito para nele descansares, nem minha boca fechando-te os olhos. Porque é preciso que eu vá embora, para longe, um dia.''
Página 53, Delírios in Uma temporada no inferno, Arthur Rimbaud.

And if it's Happiness?

terça-feira, agosto 12, 2008

Sexta-feira da Paixão

''(...)
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
"Coisa ínfima, quero ficar perto de ti".
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde
e digo: está lindo, mas não sei ser engraçada.
"A crueldade é seu diadema..."
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia de vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
é paixão.''
Página 70, A teus pés - Ana Cristina Cesar

quarta-feira, agosto 06, 2008

Cem anos de solidão

'' -- Que ninguém tenha ilusões - gritou, para que a ouvisse Fernanda. - Amaranta Buendía se vai deste mundo como veio.
Não voltou a se levantar. Recostada em almofadões, como se na verdade estivesse doente, teceu as suas longas tranças e enrolou-as sobre as orelhas, exatamente como a morte lhe dissera que deveria estar no ataúde. Em seguida perdiu a Úrsula um espelho e pela primeira vez em mais de quarenta anos viu o seu rosto devastado pela idade e pelo martírio e se surpreendeu do quanto se parecia à imagem mental que tinha de si mesma. Úrsula compreendeu pelo silêncio da alcova que tinha começado a escurecer.
(...) A sua lucidez, a habilidade para se bastar a si mesma, faziam pensar que estava naturalmente vencida pelo peso dos cem anos mas, embora fosse evidente que andava mal da vista, ninguém suspeitou que estivesse completamente cega. Dispunha então de tanto tempo e de tanto silêncio interior para vigiar a vida da casa que foi ela a primeira a perceber a calada angústia (...).''
Página 250 e 251, Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Lavoura Arcaica

''(...), e dizer tudo isso num acesso verbal, espasmódico, obsessivo, virando a mesa dos sermões num revertério, destruindo travas, ferrolhos e amarras, tirando não obstante o nível, atento ao prumo, erguendo um outro equilíbrio, e pondo força, subindo sempre em altura, retesando sobretudo meus músculos clandestinos, redescobrindo sem demora em mim todo o animal, cascos, mandíbulas e esporas, deixando que um sebo oleoso cobrisse minha escultura enquanto eu cavalgasse fazendo minhas crinas voarem como se fossem plumas, amassando com minhas patas sagitárias o ventre mole deste mundo, consumindo neste pasto um grão de trigo e uma gorda fatia de cólera embebida em vinho, eu, o epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto, arrolando na minha fala convulsa a alma de uma chama, um pano de verônica e o espirro de tanta lama, misturando no caldo deste fluxo o nome salgado, o nome pervertido do Amor, retirando da fímbria das palavras ternas o sumo do meu punhal, me exaltando de carne estremecida na volúpia urgente de uma confissão (que tremores, quantos sóis, que estertores!) até que meu corpo lasso num momento tombasse docemente de exaustão.''
Página 111, Lavoura Arcaica - Raduan Nassar

domingo, agosto 03, 2008

O Dibuk

O Dibuk é uma obra teatral de Sch. An-Ski. Uma peça que aborda um drama de amor, paixão e fatalidade. A trama, constituída por seis atos, tem início e fim dados pelos seguintes versos:
Por que, por que
do cimo das alturas, caiu a alma
no mais profundo dos abismos?
Em si mesma, a queda contém a ressurreição.
O termo Dibuk significa, no hebraico, 'aquele que adere'. No prefácio da segunda edição brasileira da peça de An-Ski, Anatol Rosenfeld escreveu: “Dibuk é o nome da alma errante de um morto. Em certas circunstâncias um dibuk penetra no corpo de um vivo; “encosta-se” nele, como diriam os espíritas. O dibuk, que se manifesta no corpo escolhido com a voz do falecido, constitui-se em grave perigo para o hospedeiro e tem de ser expulso por meio de práticas exorcistas”. Outra definição dada ao termo no glossário contido neste livro é: “Dibuk: juntado, reunido, espírito mau. Nome que designa, no folclore judaico, as almas errantes. Segundo a crença popular, o Dibuk pode penetrar um ser humano, falando através deste com a voz daquele em cujo corpo viverá e tendo consciência de tudo o que o morto sabia.”
E é daí que vem o nome do blog.