Mostrando postagens com marcador pós-modernismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pós-modernismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, dezembro 15, 2009

Falsa Valsa

Tu confundiste os murros que dei na tua porta com a tua música que atingia, inclusive, os ouvidos do mendigo da calçada em frente à tua janela. Então, a cena: tu dançavas a valsa da vida enquanto eu socava a porra da madeira que impedia os meus olhos de se estenderem ao desatino dos teus.

Desde o primeiro momento em que eu resolvi te reparar, tua face pálida já condenava o teu sangue deficiente & opaco. Contudo, eu tenho o costume repulsivo de investigar o que excita o meu ódio. A faculdade da razão é condecorada somente nas situações em que a possibilidade de transgressão adverte o maior perigo. Fora esta condição, viver não passa de um acaso desmerecido. Em outras palavras, eu sinto fome da tua falta de fome. Construo uma pré-realidade, que não pode ser entendida invenção por justamente ser capaz de me saciar os ânimos como se numa sublimação, ao sonhar o pincel revelando a mentira do teu sistema nervoso.

Quero te ver ruborizar inteiro mesmo que para isso eu tenha que cometer o ato pueril de atribuir à tinta guache a função de sangue vivo. No entanto, guardei esta pré-realidade embaixo do travesseiro das insônias porque, escuta bem, já faz um tempo que o vermelho escorre das minhas mãos em punho. Tu sabes da merda que fizeste ao confundir os murros que dei na tua porta com a tua música que tocava alto, muito alto? Aposto que se tu tivesses me notado ali, quase desmontando a porta & a mim, tu poderias ruborizar essa tua cara nem que fosse por medo de mim. Nem que fosse por um ato de lamento à minha mania de lidar com o hoje unindo as minhas definições dicotômicas de pré-realidade & pós-realidade. A minha vida não cabe na seqüência patética dos pulmões: a minha vida não inspira para expirar e assim sucessivamente. Ou eu vivo numa espécie de vômito ou vivo asfixiada.

Eu queria fazer brotar na tua pele a sensação de incêndio. Eu queria que tu sentisses todas as realidades fincadas na tua cólera de se saber vivo. Porque viver dói, meu amor. Não se dança a valsa da vida, dança-se a falsa vida que nos toma entorpecendo os detalhes reais. E eu não sei mais sobre o que escrevo. Peço, por fim, que tu desculpes a minha coragem de ser & que tu continues infiltrado na tua música ensurdecedora. Guardarei o pré-amor por ti junto à pré-realidade: embaixo do travesseiro das insônias.

segunda-feira, novembro 09, 2009

E se tu me (...)

Eu queria me inventar outra para que tivesses em mãos uma coisa certa e calma. Diferente do destrambelhado funcionamento dos meus pensamentos fluidos, da desorientação dos meus olhos de veias vinho-chassis bem delineadas, do preparo do avesso que em vão tento para te receber. Talvez tu devesses captar o grosso que me custa para então sorrir.
Não é tão pura a manhã da minha janela. Aliás, saibas tu que manhãs que me dão calafrios. Detesto que o mundo combinou o sol do leste com o despertar do que é vivo. É ofensivo dividir o que se é com toda uma conspiração de humanos, prédios, carros, fábricas indo e vindo e sendo. Embora, sim, o maior castigo seja o enfrentamento que se força à manhã e reconhecer nisso tudo a impossibilidade do toque. Eu não possuo a manhã. Tampouco o contrário. Somos, a manhã & eu, inimigas mútuas em presença. (E fãs cegas uma da outra em ausência.)
Hoje sinto vontade de me maquiar para ti, mas estou sem olhos. E se tu me emprestasses os teus?
Sou a mitologia de deuses mortais & anti-heróis.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Catarse & Catarro

Com a fúria dos dedos
Quebrei o esmalte cor tomate
No chão de madeira.
.............................................
Esfreguei, então, a minha pele
Branca do rosto
& os cabelos ruivos
No catarro sanguíneo da Impala:
..............................................
A cena da glória de um sono letal;
O purgatório das horas maquinadas
À catarse reversa
De mim.

terça-feira, setembro 15, 2009

Charm'erda

Da janela,
o meu nome atravessa.
Da cama,
os olhos acalentam o ambiente externo.
Não vejo nada além
de rua e calçadas devotas ao frio.
Os ninguéns que cantam as sílabas
tão sabidas por mim.
Desisto do destrambelho
que devora os ossos de um búfalo morto.
Viver para quê, pergunto.
Convertem a questão num eco,
tenho então resposta.
Desdizer é tão mais sábio que filosofias de séculos
romantizados anos-luz.
Se eu me chamasse Conceição,
Seria negra & corpo.
Viveria de esquinas escuras
& de circos sem palhaços.
Função: embebedar de porra
As bocas masculinas.
Nunca ser capaz de gestar humano nenhum.
Mas, inclusive, fazer ninho do desespero
Com a coragem desfalecida de rumo padronizado.
Esse hospício que ganha versos
É feito de cidades-estados
De manchetes dos jornais de merda.
Espetáculos dos dinheiros higiênicos!
Que absorvam suas tolas almas
com o humor negro
de uma poesia anacristinacesariana.

sexta-feira, julho 31, 2009

No copo, água mineral fluoretada e litinada ao invés de.

É possível, como num narcisismo crônico, olhar-se existindo quando os meses eram de data distante e, nesse influxo da memória, reconhecer-se no outro que ainda se é para, depois, abraçar com os olhos o espelho daquela dor?
(eu sou feita do sopro do vento)

quinta-feira, julho 02, 2009

2 & 3

O punho no duro da mesa
E a pétala morta cai de cabeça
Se gravidade tivesse altura
A rosa ainda vive na angústia
'Que sem água existe às avessas
Sendo mistério p’ro detetive das certezas
Outro sem por que
É o início dos indícios
Que pra ela é discurso depois luxo
E pra ele é de nota sem papel
Sanfona indo e vindo p’ras cinturas do bordel
Satírica, lírica, quase sacra e estúpida
É a poesia que serve de broquel
Do ar pulmões e alvéolos
Dos dedos corda e véu
Da voz o que vem sai de mim feito fim
Que sem sim é assim
Meio não, meio de sentimento em gira-pião
Que tonteia em função de sentimento
Que direciona os olhares vesgos no segundo lento
O que é morrer para viver
Se a vida endurece se o tempo,
Ao invés de parar, só faz correr?
O que é a vida do ser
Se não se é só
Se só se é dois e três?

sexta-feira, junho 12, 2009

De mim

Rasgo o maço de cigarros já aberto com primazia & esperança. Era necessário que a surpresa que eu viria a suspirar constasse um pouco ou mais de três ou qualquer número ímpar de cigarros que me satisfizesse suficientemente para continuar a ainda tentativa de prosar o que dentro pede vida em linhas.
-- A conta não levou em consideração o cigarro que fumava a si mesmo no cinzeiro.
Sinto como se esta ponte verborrágica esteja sendo o primeiro gozo trazido de uma enferma inspiração. Quiçá os ponteiros marcando uma madrugada infante estejam me excitando um temor que eu sabia que me acompanharia nessa dinâmica solitaire. A dialética simplicidade comprando briga com a câmera ardente dos olhos de meus pulmões tão e miseravelmente poéticos. E quem foi que disse que poesia era coisa simples.
Não duvides tu que eu não seja a mulher das flores. Entretanto, que fique desenhada à lâmina a mulher que supõe a paz de espírito no momento em que mãos masculinas a levarem ao jardim. Pode parecer ingrato o meu sorriso não ser capaz de servir agradecimento perante a sinceridade de pétalas, mas, te digo, sempre ensaiei esses meus cabelos longos de modo que transpareçam a meiguice que inventei de mim. Algo como se fossem fios de uma vaidade de camponesa, a dona das manhãs invertidas que agüenta o sangue nas veias no campo, era uma vez. E pensar que quando fomos (de ser) tantas - que poucas - vezes, tu não me indicaste a placa-mãe de sejas como és e, talvez por isso, tu próprio não saibas lidar com tua fome inata (que prezo, que quero presa). Se parto dessa premissa última, posso até com o perdão a ti - que te mostras um mosaico sabido de homem, carne, tempo e páginas rimadas. Essa tua rotina de me agradar com broche de flor azul-marinho, cartas inesperadas em folha rosa-ballet, adesivos pueris, número de porcelana servindo de metáfora literária e também de analogia ao primeiro toque ontológico de uísque de tu em mim e de mim em ti na esquina de nossa casa me deixa impotente a seguir me sendo. (De nossa casa, de nossa casa, de nossa casa.) É cômica e de uma aparência corrompida a distância que se deita entre o teu leito da Augusta e o meu da rua Antônio Carlos. Para não dizer patética, pois. Que, nesses dois anos respirando pela ajuda do coração do Diabo de São Paulo, é imbecil o destino por não ter produzido uma troca nossa de sentidos na fila do cinema Unibanco ou Belas Artes, na livraria, no sebo, nos bares da solidão ou mesmo nas mesquinhas & indolentes faixas de pedestres da Avenida Paulista. Não sei dizer se minhas mãos de piano sonharam com a textura da tua barba de tímidos pêlos brancos. Em contrapartida, posso rigorosamente dissertar que teus olhos de vidro me comendo naquele sábado de mágoas me foram palco de insônias de inverno durante a minha marcada adolescência. Os meninos do colégio nunca me acalmaram o grito rebelde, tampouco as meninas doces de vulvas rosadas. Procurei desesperada e por becos de túneis – feito filha de cigana que sempre almejou o além da liberdade do berço que lhe deu cuidado transviado -, o dicionário dos rapazes de camisa xadrez, das revoluções políticas e da poesia romântica & exaltada que eu lia nos livros roubados da biblioteca.
A lágrima piedosa desce feito navalha no branco do meu rosto quando levo a cabo que todos esses meus pecados de menina sem futuro revelam que o que o meu agora cruento quer no calendário são os teus ossos pesados fazendo amor no escuro com as minhas narinas alargadas. No escuro. Arrebentando-me a tez apática de não saber amar e estar pesadamente fadada a não saber ser amada.
Pobre de mim de mim de mim de mim de mim de mim, Dimitri, que ao negar introspecção da fala de sondagem psicológica reino, aos tropeços ritmados pelo silêncio que te/me sufocam os fins noturnos, a camada tênue do sonho-pesadelo. As minhas palavras combatendo às suas próprias significações literais são fracassadas por dançar o sentido que não bate nunca à porta. A minha testa clama ser quadro impressionista quando se põe, assim, em rugas de uma velhice de dezenove anos tão coitada, tão cansada de denunciar a renúncia de existir a dois. Quem sabe quando tu cavares no meu ventre alguma podridão que te seja característica, eu encontre, enfim, a permissão de dar a luz ao meu eu mefistofelesmente verdadeiro. E, por favor, não te assusta. Que, juro, o monstro de mim tem a delicadeza dos ventos de outono & assovia notas tristes nas calçadas do teu país.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Quando bate o eco mudo na cidade

Os sapatos pisando em falso na crise liquidada. Quantos dois-mil-e-doze faltam para o fim? Não faz verão dentro das costelas; solitária andorinha. Que pendurem a velhice dos calendários na parede. Que minimizem a liberdade à nudez. Que seja como não era, contudo, quando bate o eco mudo na cidade Cérebro, é a sempre vontade de um uísque somado a carteiras e carteiras e carteiras de bastonetes de tabaco que me pendura na cruz do avesso. E não é suplício suicida, nem propaganda do self em cubos de gelo antártico. É u m d i a de fogos arco-íris para a constatação das próximas vinte e quatro horas com síndrome de não prosseguir. Que é que há com o meu sonho acordado? Com as Ritas? As Linas? Com as inspirações que embaraçam os pisos no percurso até o telefone tocando (tocando, tocando, infinito)? Que é que há com a coragem das olheiras sábias? Com o amor-próprio durante o banho milenar? Que é que há com o pontilhado nítido antes do líquido que chora os olhos? Que é que há com você, humano? Para onde levou o pedaço de pedra cintilante que me direcionava os dedos indicadores? Que era o anel-bússola que me descortinava os dentes num riso? Quando tudo vem, a loucura, quando tudo vai, mais loucura, quando tudo mar, eu vou não querendo vir. E se fossem ondas de uísque, para que o eu? Se fossem fossas de uísque, eu não mais sou nem soul: eu-é, eu-ela é, eu-ele é, eu-nós somos. Eu-você me é? O grito existencial é o copo amargo com os 12 anos patinando no gelo, é também fumaça com sangue. A rouca voz fode o silêncio. Toma teus filhos que bebem os meus corações pelos meus seios opacos. Vê que as nossas crianças já nasceram dando passos? Haja crise liquidada. Viva os sapatos que pisam em falso! Ora, felizes três anos para o então dois mil e doze; somente a você a felicidade, somente a você o ano dois mil e doze. Este é o meu último vestido a perambular fundo na cidade Cérebro; não é mágico?

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Toma os teus ponteiros

Que esse ar que me falta
é o troco dos relógios que invento.
2008, de fato, foi o ano da lama.
Todavia, que venha o vinho,
mais chuva no ninho,
&, por favor, meus corações todos num só umbigo.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Birds of Paradise

No substituto de outro instante - nessa de mundo numa festa à fantasia, astronautas reagindo à fotoquímica, corações emergindo em escafandros, almas a ver navios piratas -, quando tua mão resolver-se à minha, a paisagem bordará, apenas, uma risada malévola de um Deus.
Do pó, o que o vento não levou. De mim, o sono repetindo as vinte e quatro horas. De ti, a imbecilidade subindo palanques. De nós, as amarras desatadas.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Conteúdo fônico descomplicado p'ro Benzinho

Bota as roupas p’ra lavar, Neguim, sei que tem xícara com café monco esquecida embaixo da cama, tá ouvindo não que o cinzeiro grita o hino por paz? Ó o lixinho atrás da porta, Benhê! Encontrei o Montilla na tua gaveta de cuecas & samba-canções, amor beldo de beldade atrofiada, olhaí o paletó servindo de tapete p’r’esse vira-lata!
Seo Francisco Raimundo, desde quando eu falo grego p’ra’s paredes dessa casa? Vou arredar o pé diss’aqui se em dois palitos não fizer das tripas coração!
Devolva o sorriso p’ra’s minhas rugas, meu Chico, ’que aí nem penso e a gente já cai p'ro suor, fazendo graça no sofá da sala..!
__________________________________________________
(O que é que teu ouvido de tuberculoso quer? Não sei a quantas anda a lógica do dia seguinte, então toma o silêncio da minha língua.)
  • ata-me, ata-me, ata-me, ata-me, ata-me, ata-me,,,
  • domingo, novembro 30, 2008

    4 horas & estômago: mais um ensaio

    Não farei uso de palavras rebuscadas. Tampouco da prolixidade. Com o propósito de aniquilar as referências, deixei inclusive a minha individualidade ao lado do dicionário, ambos posicionados no leito do meu pouco sono. A cama que, embora os lençóis tenham sido lavados e relevados, registra – ainda - o ar do conhaque vindo da tua boca estúpida, por vezes malcriada. Sei que a culpa da tua mediocridade não veio do útero de quem te suporta, quiçá a tua existência fora de fato um mau agouro para o mundo. Não farei insinuações pouco confiáveis; as metáforas se cansaram de mim. Desamarrarei os cadarços de olhos fechados, sem risco de me prosar um fenômeno instintivo. Pendurarei o casaco das mangas ¾ na cadeira em frente – tua suposta residência - neste Vanilla Cafee, como se tu tivesses fugido para resolver as tuas vontades fisiológicas ou para fumar cigarros em outro ambiente, sendo que a escolha da mesa nunca deixou de ser na área de fumantes. Ao invés de cervejas belgas ou canadenses, a garçonete trará chá de maçã com canela. Na cena coadjuvante, de foco míope, humanos sentarão famintos ou sedentos, abastecerão os vícios mesquinhos, tornarão a ausentar-se para que outros repitam sucessivamente os entusiasmos supracitados. Manterei as pernas cruzadas e intactas, fazendo pouco caso das dormências musculares, as mãos atadas uma a outra, a face fechada, os cabelos trançados e a nuca nua – que é para sabotar a queima corporal cuja tomada se dá durante o preparo para deixar de te ser. Quando o regime elabora novas leis, não há quem escape de punições. Então inventarei cláusulas que explicarão sofrimentos de outra estirpe. Atirarei os meus corações nas capas sem porquês das revistas, de modo a anoitecer sendo conteúdo de qualquer inédita notícia. Investirei o meu cansaço anulando o meu saldo bancário com fugas para garagens de rock, para botecos cheirando a meretrizes, para quartos de anônimos, para avenidas de mão dupla. É simples elaborar diagnósticos quando se sofre de todas as doenças sentimentais. Falsificarei portfólios artísticos com a finalidade de surpreender os espelhos. Tu foste a diferença universal dos eus que outrora, passado meses a fundo, definiam-se; tu provocaste a minha usual instabilidade emocional. Quem se é de forma exagerada, clama por terras devastadas & frutos proibidos. Devo ter atingido o exílio de mim quando entreguei a minha insônia a ti. É nítida a minha falta do que fazer com as muitas roupas que deixaste espalhadas em minha casa - vestuários que nunca me serviram nem nunca me protegeram do inverno. Os meus lábios rachados comprovam a ansiedade afagada com cigarros & issos & aquilos. Realmente; é desdenhoso todo o esboço que demora a ser arte finalizada. Acontece que toda esta exposição é o máximo do meu pós-modernismo. Comprarei rosas brancas e as distribuirei aos indigentes, serei Maria das Dores, lerei a literatura alemã de cabo a rabo, serei Joana D’Arc, levantarei o dedo às teorias psicológicas, serei Lou Salomé, usarei três colares no lugar de um, serei de Beauvoir, farei as unhas em lua cheia, serei uma virgem, apreciarei vinhos chilenos da safra de antes de Cristo, serei Anaïs Nin, morarei em hotéis impessoais, serei desconhecida, afogarei os diários no Rio Nilo. Por fim, farei uso de outras incansáveis noites, das descabidas manhãs, da vida que segue sem rumo para, talvez, não mais desmentir os primeiros dois períodos que abriram as falsas cortinas deste mais outro ensaio. Não farei uso de palavras rebuscadas. Tampouco da prolixidade. Balela!

    sexta-feira, novembro 14, 2008

    O Retrato dos Hojes

    O hábito da maestria dos pés cujo entendimento máximo é o do recuo. O retrocesso que mesmo cega, que mesmo manca, que mesmo nula, que mesmo chuva eu sou capaz de levar a efeito. Da faculdade ao ponto. Cinco a vinte minutos (se por volta das sete, oito da noite, vinte minutos é pouco): o ônibus. O Ana Rosa veio para o desabrochar. Subo a Cardoso de Almeida com a face enfiada no vidro da janela da condução.

    A cada parada, a cada introdução de gente - cada vez mais gente - no veículo, entro mais a cara no vidro e o nariz achatando e o olho direito esmagando e o pavor - preferia o susto - vindo, vindo. Como se o vidro fosse o abraço materno. Um acalento para o temor da impessoalidade que satura o espaço andante. O medo do próprio é o que eles têm. Eu tenho medo da impropriedade em ser deles. Os humanos não mais se olham. Fogem das olheiras do próximo que é para não se perceberem exaustos iguais. Com uma das mãos agarram firme as suas pastas e bolsas ao terno e tailleur; com a que lhes resta, o suporte que evita mais outro desequilíbrio e, então, vivem a solidão lotada - esta outra uma também desequilibrada. Enquanto a minha cara amarrotada.

    Enquanto, estendida a Cardoso até o extremo de sua extensão, o engarrafamento da Dr. Arnaldo lhes comem e torram a paciência e me remete a um desconforto cotidianizado - tanto pela posição, tanto pela falta de caber. E é assim durante a travessia do túnel para a Avenida Paulista. E é assim na Avenida Paulista. E acaba de ser assim quando vou me desamarrotando para descer no ponto em frente ao Conjunto Nacional. Em terra firme ou quase, desejo-lhes coragem para seguir viagem com as suas economias ontológicas exageradas numa espécie de piedade, Senhor. Curo pavores com compaixão, eis uma verdade nada dialética.

    Agora é esperar na calçada uns três minutos para o farol de pedestre me permitir passagem. Vão carros e motos, vão para bem longe de mim! Já do outro lado da Paulista, sigo reto até a Haddock Lobo, passando pelo inferninho tumultuoso da Augusta, desço a Luis Coelho e viro à esquerda da Antônio Carlos. Mais trinta e sete passos largos e o zelador, Seu João, abre a porta principal. Hall de entrada e a porta do apartamento Dois - assim, bem perto, no térreo. O retrocesso costumeiro que me leva a outros mil em matéria de pensamento. O canto inseguro da minha ousadia em ser nua, verborrágica barata e crua de vincos e dobras na face com, sim, olheiras. Mas olheiras de vidro. Vida que não é um abraço materno.

    quarta-feira, novembro 05, 2008

    A maçã

    De modo furtivo, intervindo violentamente a idealização da minha estréia em plena decadência do ano 08, resolvo a lobotomia paranormal. O complemento na nominação dada à intervenção cirúrgica, estreante aos ouvidos igualmente, deve-se ao fato de não se tratar aqui da cura para a esquizofrenia, os delírios ou mesmo as alucinações. É de caráter antagônico a causa: versa-se sobre o ganho de um banho de realidade desmedida quando se impera a boçalidade em desconhecer o ralo mais próximo. Então, a secção é feita entre o real maciço e a ignorância de executar o fim, isto é, fazer uso do crivo da moral. A paranormalidade entra quando a massa do real se esvai. Afinal, a esperança é justamente a falta de competência para finalizar, sendo esta a fome escandalosa de vida que corrói as entranhas. Perdendo de vista todo o assunto verdadeiro que engolfa, ficarei com a esperança intacta: a peneira não me fará sucumbir à moralidade. Eis a cura. Dormir para acordar e acordar para dormir - e assim sucessivamente - só enquanto o piano não despenca no centro neural. É como ter a maçã e a iminência do pecado. Ser amoral incansavelmente durante todo o processo da existência por ganância à liberdade. E, depois, com tamanha câimbra por suportar o vazio do crivo – feita a lobotomia paranormal já descrita -, aplicar o conto-do-vigário; cuja ação se resume, de maneira exclusiva neste caso, a mergulhar em autenticidade ao contrário de banhar-se de. A partir disso, a estréia. Para ser vigarista há de ser moralista. É exatamente neste momento que a queda do piano acontece. Eis a saga do princípio do prazer & as curas temporárias. Tome esta maçã! Pequemos até o apocalipse!

    sexta-feira, setembro 12, 2008

    A junkie romance

    Provocada a inconfidência do mal-do-século ao lamber o teu vômito sinestésico para delirar a minha saliva de tanto Joãos e Marias – ou as Joanas -, despertar-te a manhã seca derramando Southern Comfort nos teus lábios. Te comprar o mundo travestido em uísques & vinhos mediadores do nosso rock em all night long. Te consertar o nítido desenhando formas geométricas no teu ventre satírico. A psicodelia de divergir o fim dos heróis folhetinescos na sonoplastia das nossas palmas soerguendo o welcome teatral à nossa morte imatura. Corroer a tua nuca romântica com versos que explicam a guerra entre os mortais e a via láctea dos que se drogam de vida em demasia. Te banhar em água etílica o teu órgão máximo do prazer, te flutuar a madrugada libertina limpando as unhas de uma fuga em pés descalços, te acender o cigarro maldito e te ascender o trono dos meus corações selvagens, te cultuar a rebeldia consentindo a causa tépida de existir sem custódia familiar, te crivar os ópios de cair em tentação, invadir o diáfano e amar em vão. Te beijar a confusão dos baralhos eficientes no que cisma o tempo em seus pseudônimos. Te dar nomes a cada sobriedade anoitecida, te jurar o eterno sórdido no sótão d’alma, te casar a inconstância de pertencer on the road dentro aos valores utópicos. Isso tudo para te vaguear o culto aos gritos num uníssono a dois e mais toda a religiosidade de se prolongar na prosa de outrem.

    segunda-feira, setembro 01, 2008

    Dois mil duzentos e oitenta e sete

    É preciso que eu me renove. É preciso que eu caia somente e tão somente na insanidade de existir sem clemência demente. Sê forte no equilíbrio, me repito. Sê braços na queda diária. Sê suspiro domesticado na corda vestida de impulsos. Sê dança tímida no impacto dos faróis imortais. Sê o novo experiente de rimas não tão plácidas assim. Sê sem ser senão uma sã clássica, todavia de uma sanidade completa da transfusão decorada, aprendida e consignada. Sê significado consciente. Sê corpo que não se desmente. Sê puramente leve. Sê material conciso da mente. Sê o cravo do asfalto. Sê nome sendo, sê só amor.

    quinta-feira, agosto 21, 2008

    Derrame verbal

    Simulando dois navios naufragados, os tapetes de pele envoltos aos meus olhos derramados. Eu devia estar me sentindo tão calcanhar despido em gelo e escamas que imaginei a tua fraqueza conduzindo os meus impulsos derretidos somente por não caberem. E te vi sentado numa calmaria que nunca tua, assistindo o filme dos papéis que engravidam vozes de mim. Tu me secavas a vida que me estampava o choro na escuridão desejada do cinema. A vida que é o meu sintoma cognitivo maior. Os muitos cavalos galopando o meu pouco espaço. Eu estava prestes a explodir quando te criei tão real ao alcance de minha alucinação amiga. É que eu me proibia de amar em desatino as montanhas invertidas. Dava-me ordens como não me despir nem em banhos diários. Avesso de mim servindo de proteção aos tecidos. O que era mim-eu-dentro-alma-âmago-me-sangue deu de facas à intimidade sabida anônima. E tu tens a mim como sendo invenção nunca existida. Então te inventei para que me inventasse, para que despisse o avesso e depois as minhas vestimentas, para que a minha estrada mais funda pertencesse a tua cabeça libidinal mais instintiva, para que, junto a mim, tu te tornasse também navio naufragado; embora um navio naufragado em gozo possível de montanhas invertidas.

    sexta-feira, agosto 08, 2008

    O calendário dos velórios

    Quedou os próprios pés
    No ácido líquido de lágrimas
    Saídas de seios em galé
    De mulheres grisalhas
    ____________________________________________
    Ritmo kitsh de uma velhice
    Nascida de um acúmulo oco
    Ganhado no troco do que, tu viste
    Belzebu deu pouco, um amanhã e teu olho

    ____________________________________________

    Para injuriar colméias assassinas
    Da esperança transfigurada na esquina
    Da ordem mesquinha: vida e morte, morta-viva
    Dos anônimos que lhe amputaram a sisudez das pernas

    ____________________________________________

    Enchiam a bacia que tu guardaste os dedos polimorfos
    O leite materno de berço
    Das grisalhas rezando o teu começo
    Num velório em vinho; o teu antigo remorso

    ____________________________________________

    De transtornos bêbados na incoerência
    A dama violenta te encanta na dança
    Que louva teu rancor pávido
    Rebolo o osso, te arrepia o dorso pecaminoso

    ___________________________________________

    Te pendura as patas, Felino
    No cenho de um escaravelho
    Te cospe o excremento no teu caminhar coxo
    Te ri o eu ao espernear o teu hino, Felino, de adeus

    ____________________________________________

    (Na missa sem Deus
    Na armadilha do fim teu
    Tumba tua, de Julieta e de Romeu)

    terça-feira, agosto 05, 2008

    Uma lira desvirgem (deflorar: de flor em ar)

    por favor,

    enfia folhas plácidas

    amarradas por cadarços,

    ou que via de regra sejam

    escritas com sangue e pena

    e tenha pena, por favor

    ou não há acordo com a minha paz

    nem com o terno do termo abreviado

    que senta e muito faz na procura pelas pernas

    para serem cruzadas

    (é medo dos olhos que comem os olhos)

    (ou das mãos que tateiam os teus dedos e vagina)

    o sino na crista da amargura alucinada - que sina

    disfarçar é a minha dignidade – que nada

    ________________________________________

    minha,

    saio berrando o que não tenho na goela

    tua,

    cela cancela o ela e fica mim, eu, sentido

    o susto afunda umbigos

    morra comigo?

    se respeitares este pedido,

    a tua rima será deflorada

    a raiz extirpada

    e os teus papéis rabiscados

    boicotados, atirados lado a lado

    obrigados a queima do meu trago

    saído

    fundido

    indo

    ________________________________________

    buscar a tua pureza no quadro branco

    que é silêncio

    (este que forjo com a corja das sílabas-marias

    que de virgem só carregam o oco da solitude

    numa euforia ranzinza)

    Me ama, me cama, me vinho

    Submergir teus carinhos opacos
    Permanecer-te amor me cabendo
    à tua carne iníqua
    O meu cortiço intercutâneo
    a poesia parnasiana da tua estrutura
    O meu devaneio na tua rosa
    o herói da minha pólis sobrevivente
    Uma guerra fria no inferno da obsessão;
    Ah! Me ama, me cama, me vinho carbenet sauvignon!